segunda-feira, 24 de junho de 2013

Amiga Kivia Rodrigues Batista

E então a chamada “Morte” nos chega. Ela é sempre muito democrática, vem com a desculpa de que era o momento oportuno e que a liberdade da alma necessita deste aval.
                                                            Kívia Batista Rodrigues

Minha amiga querida, guerreira até o último suspiro de sua vida, profissional incansável e orgulhosa.
Lembro-me de sua alegria estampada, o que era comum em você, no dia em que foi me mostrar o seu carrinho, comprado com seu suor. Aproveitamos pra conversar sobre Segurança do Trabalho (nosso papo preferido), CIPA, sua luta pra conscientizar engenheiros e gestores.

Em uma turma de curso técnico com mais de vinte alunos, somente nós duas seguimos essa carreira tão digna e sofrida de TST. Você, com todas as dificuldades não desistiu, correu bravamente atrás dos seus sonhos e mostrou sua garra na Cyrella, onde se orgulhava de trabalhar.


Sexta- feira, dia 21 de junho de 2013, ao tentar proteger sua família, agarrada a porta do seu lar, tentando impedir a entrada de dois monstros, foi friamente alvejada com um tiro que atravessou a madeira e também o seu peito. Seu pai ao tentar socorre-la, também teve sua vida ceifada. Pai e filha assassinados.

Todas as semanas falávamos sobre nos encontrarmos aos sábados, toda a turma, eu, você, Denise, Aline, Renato, Mário, Solano, Charlene, Hugo e quanto mais pudéssemos contactar. Esse sábado chegou de forma triste, de uma forma que nunca deveria ter chegado. Encontramo-nos, eu, Denise e Aline, mas fomos chorando olhar seu corpo inerte, já sem vida, e só conseguimos olhar, já dentro de um carro, o ataúde que abrigava a amiga querida.

Sinto agora que não adianta gritar. E fico aqui esperando a proxima notícia: quem será o próximo?

Não sei se é a impunidade que provoca atitudes monstruosas (como por exemplo, a morte de Kívia). Preciso pensar sobre isso. O que sei, porque estou viva (ainda) é que nós (re)produzimos valores e não damos conta de compreender como eles são absorvidos.

A vida não tem valor nenhum (só me resta pensar dessa maneira), ou o valor da vida é lutar pela sobrevivência. Não importa se sou gente boa, se trato bem as pessoas, se sou amorosa, se sou tranquila, se sou alegre, divertida, se vou à igreja, se rio de mim mesma. Nada disso conta mais do que a vontade de ter alguma coisa. Que besteira eu pensar que esses valores tivessem força para impedir um tiro, três tiros, um assalto, tamanha violência. Não Têm.

Fica a sensação de impotência apenas. E a ela soma-se um vazio dolorido.
Fica também muito medo. Não fica nada além de tristeza.

Essa página não era pra ser escrita, pelo menos não por mim, seguindo a ordem natural da vida, não hoje, não nessa década. Ela foi escrita muito cedo. A Kívia se foi aos 23 anos.

São Luís, 24 de Junho de 2013

Um comentário:

  1. Quanta saudade.. ;(
    Uma dor no peito grande, quando lembro que nunca mais vou ouvir seus risos.

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